sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Racismo

Eu não sabia que existia racismo contra asiáticos. Foi só esse ano, ao ser adicionada a um grupo sobre o assunto, que descobri que não era a única que me incomodava com essas coisas, e que essas coisas tinham nome: racismo.

Quando eu era criança e me chamavam de japonesa, mesmo vindo de amigos, eu ficava brava e dizia que "não, eu não sou japonesa. Sou tão brasileira quanto qualquer um de vocês!". Da mesma forma como vocês são descendentes de italianos, portugueses, alemães, holandeses, etc, mas são brasileiros, eu também sou, mas com a minha descendência mais "identificável" pelos olhos puxados. Eu sou brasileira.

Na adolescência, como qualquer outro jovem, comecei a falar palavrões para me expressar. Ou pelo menos tentei. Toda vez que soltava um "É foda mesmo..." todo mundo olhava para a minha cara! "Você, falando palavrão? Mas você é japonesa, vai desonrar sua família assim!". Então, eu evitava para não chamar ainda mais atenção, eu me continha e, assim, perdi o direito de me expressar do mesmo jeito que todos os meus amigos que não eram asiáticos...

Sempre fui bem na escola, minha família sempre me apoiou, incentivou, e eu gostava de estudar. Mas quando ia bem nas provas, não era pelo meu esforço, não era pelo tempo que gastei estudando e prestando atenção às aulas. Era porque eu era japonesa. Tinha os “genes” da inteligência. Não era pelo mérito, mas sim porque japoneses são todos inteligentes, não? 
E quando não ia bem nas provas? “Ah, se a japa não foi bem, todo mundo que foi mal tá perdoado”; “Logo você não foi bem? Vai desonrar sua família!”. Não, não podia ser porque eu não estudei direito, ou porque não entendi a matéria, ou porque tava passando por um momento difícil, ou estava nervosa. Eu sou japonesa, sou inteligente por natureza, então tinha a OBRIGAÇÃO de ir bem.

Na passagem para o colégio eu já estava cansada disso tudo. Cansada de ser rotulada por ser japonesa, porque todo mundo me conhecia então eu não conseguia ser eu mesma, eu simplesmente agia da forma que esperavam para não chamar ainda mais atenção. Então decidi mudar para uma escola onde não conhecia ninguém.

No primeiro dia de aula me chamaram de “Chô”. Não entendi e fui questionar. “Ah, é que você é igualzinha à Cho Chang de Harry Potter!”. Não, eu não era igualzinha, a única semelhança era de que ambas somos asiáticas. “Ela é descendente de chineses e você de japoneses? Ah, é TUDO IGUAL, vocês são iguaizinhas sim!”. E dessa forma, ganhei o apelido de Chô na escola. No final do ano, lembro de uma colega vindo pra mim e perguntando: “Chô, eu tenho que anotar o nome dos alunos aqui... Qual é o seu nome mesmo??”.

Quando ia para baladas, as cantadas eram sempre direcionadas à minha etnia. “Nunca fiquei com uma japa, sabia?” ou ainda “Japonesas são tão lindas, só fico com japas, sabia?” ou seja, pouco importa quem eu sou, mas apenas a meus olhos puxados; “Ainda vou casar com uma japonesa para ir para poder ir pro Japão!”; “Chegou meu passaporte pro Japão” eu deixei de ser mulher para me tornar um passaporte, um visto. 

Por muito tempo não me achava bonita o bastante. Como posso competir com essas minhas amigas? Não tenho peito, não tenho bunda, praticamente uma tábua. Olhos puxados, cara redonda, tudo errado! Não sou branca e nem tenho um corpão... Então desenvolvi em mim um pensamento de compensação: “Pelo menos sei que os garotos que se interessarem por mim, vai ser pela minha personalidade e inteligência, e não só pela aparência!” Afinal, eu não era bonita, então ninguém ia gostar de mim só pela beleza. Era óbvio!

Só fui mudar e me aceitar a pouco tempo. Comecei a amar meu próprio corpo e parar de me comparar com as outras mulheres, normalmente brancas, a alguns anos... Em parte, devo ao meu namorado, que fez eu começar a me sentir bonita de verdade, sem precisar mudar toda a minha aparência. E por outro lado, comecei a me informar e me engajar melhor na luta feminista, e isso me trouxe um empoderamento que não tinha antes. Perceber que não precisava me encaixar nos padrões de beleza para me sentir bonita me trouxe a liberdade de me amar e de ser quem eu sou. 

Acho engraçado que quando eu conheço alguém, uma das primeiras perguntas que fazem é: “Você é descendente quê? Japonês, chinês ou coreano?”, e quando conhecem algum branco, não perguntam se a pessoa é descendente de alemão, português ou francês. Para os brancos, isso não faz diferença, então por que para os amarelos faz? 
E é um absurdo que eu não saiba falar japonês, afinal, sou japonesa, não? Mas não é absurdo que o descendente de italiano, alemão ou ucraniano não sabia falar a língua de seus acentrais. Alias, é bem normal , eles são brasileiros. Mas eu, por ter minha descendência estampada na cara, nunca serei considerada realmente brasileira.


Não sou japonesa, mas sou amarela. Tenho orgulho da minha descendência, mas também tenho orgulho de ser brasileira.

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