6h da manha, saio de casa para o trabalho. De longe já vi um homem no chão, deitado, com alguns objetos ao lado que indicavam ser um morador de rua. O chão ainda estava molhado pela chuva da madrugada, imaginei logo que o senhor estava dormindo sob o abrigo do ponto de ônibus. Paro próximo a ele, aguardando o ônibus, então reparo que sua posição está estranha, não natural para quem está dormindo. Mas as vezes ele apenas dorme de um jeito estranho.
Vejo então um sapato sobre o banquinho e reparei nos pés do senhor deitado. Ele tinha apenas um pé calçado. Que estranho! Porque o outro sapato está tão longe?
Reparo então em um pouco de sangue no chão. Está seco, então penso comigo mesma que não deve ser dele. Por via das dúvidas o contorno e olho, pela primeira vez, para o seu rosto. Sua testa está machucada, e olhando de frente a posição está ainda mais não natural. Começa a bater o desespero, tento ver se ele está respirando, mas algo dentro de mim me impede de chegar muito perto. Ele não se move, nem mesmo aquele movimento natural de quanto respiramos.
Tinha um carro da CET próximo, e antes de chegar ao ponto tinha visto o guarda passando pelo senhor. Pergunto a quem já estava no ponto se o guarda tinha chamado a polícia, se alguém tinha ligado para o resgate. Ninguém. Apenas pessoas comentando "Alguém tinha que chamar o resgate, né..."
Ligo para o 190. Nunca tinha usado esse telefone antes. Conto que há um homem caído no chão, sangue na cabeça, aparentemente morador de rua, que já estava assim quando cheguei.
Me encaminham para o bombeiro, onde repiro a história, e me encaminham para os responsáveis pelo resgate. E cada vez, ao contar a história, fico mais e mais nervosa. Começo a ter crise de choro e nem ao menos sei direito o porque.
O resgate foi acionado, alguém estava vindo. Não aguentei esperar por ele, me desesperei e entrei no primeiro onibus que apareceu. E chorei. Fui para o trabalho segurando as lágrimas, pensando, me perguntando. Será que eu fiz o certo? Será que eu devia ter feito mais alguma coisa? Devia esperar? Mas o que eu faria? E eu teria forças? Acho que não.
Algo no fundo do peito ainda está doendo.
Aquele senhor não morreu de forma natural. O sangue no chão, o sapato distante, a forma como estava caído. Talvez ele estivesse apenas dormindo, se protegendo da chuva, quando alguém pensou que ele não era digno sequer de estar vivo. Ao seu lado algumas sacolas grandes, cobertor, talvez fossem todas as suas posses.
Ele teve que morrer por não ter onde dormir.
E ninguém à sua volta parecia se importar. E eu, que saí correndo de lá, sou melhor que algum deles?
Nenhum comentário:
Postar um comentário