domingo, 22 de janeiro de 2023

Vazio

É normal ver a si mesmo em terceira pessoa? Ser expectador da própria vida?

Era assim que Lina se sentia naquele fatídico dia. 

Depois de descobrir que a pessoa em quem mais confiava a estava traindo, sentiu que uma parte de seu coração morreu naquele instante. Por quê? O que ela havia feito para merecer isso? 

Tudo isso em sua mente, ao mesmo tempo que tinha que trabalhar. 

Sempre acreditara que a base de um relacionamento era o respeito. Mais que o amor, pois havia casais que se amavam e não se respeitavam, e isso não dava certo. Mas respeito, não. Quem respeita, não trai. Quem respeita, não mente. Quem respeita, coloca os sentimentos do outro à frente dos próprios. 

Ler e-mail, respirar, responder, expirar, assistir reunião, respirar, ler ata, expirar, digitar relatório, respirar, e, pelo amor de Deus, não surtar. 

E, se não houve respeito, houve amor? Amor de verdade? 
É possível perdoar e seguir em frente? 

Lina acreditava que não, que não é possível perdoar uma traição.

Tudo no automático, ao mesmo tempo tendo que controlar até os mínimos detalhes, para ninguém perceber que, por mais que estivesse lá, havia um buraco enorme em seu peito, a falta de ar alternando com soluços mal contidos e lágrimas não derramadas. O mundo tão grande, tanto acontecendo, e o olhar vago, vendo o vazio da vida passando por seus olhos. 

Mas ele parecia tão arrependido... E ela o amava tanto. Seria o amor então a base do relacionamento? Ou o arrependimento seria tanto que seria possível tornar o respeito à base novamente? 

Mas como perdoar? Como voltar a acreditar? Como conseguir ser feliz? E ela poderia se sentir inteira novamente? Nesse momento, parecia que não. 

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